Memorial

Memorial
me.mo.ri.al
adj (lat memoriale) 1 Que traz à memória. 2 O mesmo que memorável.
sm 1 Livrinho de lembranças. 2 Petição em que se faz referência a um pedido já feito. 3 Apontamento. 4 Escrito em que se acham registrados certos fatos memoráveis. 5 Dir Trabalho escrito, em que uma das partes litigantes expõe sua pretensão e sustenta o direito que a ampara na causa, fundamentando-o.

 

Se foram. Por diversos motivos, de diversas formas, justas ou injustas, previsíveis ou inimagináveis, comuns ou trágicas, não importa. Só posso dizer que se foram. Muitos eu não vi, nem ouvi falar, alguns eu conhecia e com outros cheguei a dividir de momentos a grandes períodos de convivência.

Alguns viviam de maneira intensa, outros pela cautela se pautavam, porém, quando chegou a hora, não importou o modo como andavam, foram todos surpreendidos pelo evento inevitável. Eram altos, baixos, magros, gordos, saudáveis, doentes, bonitos, feios, sensuais, asquerosos, educados, trogloditas, carecas, cabeludos, sensíveis ou sem coração; uma infinidade de tipos, que no final pouca importância tinham, mesmo que tivessem sido tão importantes quanto os meios que os tornavam importantes.

Resumindo, eram apenas como eu ou você, alguns que viviam e deixavam viver, tinha também os que impediram alguém de viver, apenas para poder viver de uma forma que os fizessem se sentirem ser, alguém diferente, ou mesmo igual, ao que eles eram, mesmo que por um pequeno momento.

No turbilhão, tão diferentes eles eram, que parecia impossível que todos pudessem coabitar em um só lugar. Alguns estavam separados por metros, por centímetros, enquanto outros a milhares de quilômetros se encontravam. Alguns se viam pessoalmente todos os dias, outros apenas umas poucas vezes, e outros por sua vez, nunca seriam vistos. A menos que fossem procurados, a menos que alguém, ou algo, ou alguma circunstância, apresentassem ambas as partes.

De qualquer forma, em um lugar eles estavam antes de partirem, todos, juntos e próximos, a apenas um clique e uma busca de distância. Ali atualizavam suas vidas, amores, tristezas, alegrias, problemas, esperanças, devaneios, momentos, crenças, certezas e opiniões, de forma metódica ou caótica, constantemente ou esporadicamente; não importa. Uma pequena parte deles estava ali enquanto vivos. Alguns se prepararam, a maioria não teve chance, mas independente de como, eles se foram.

Poucos levaram tudo consigo, no geral, mesmo os que tentaram, acabaram deixando resquícios de si. O resquício do qual eu falo aqui. Um resquício que parece insignificante, mas que tem todo o significado quando o dono dele partir. Resquício que pode estar sendo preservado pela vontade de amigos e familiares, ou que por mero acaso continua existindo, ali, há um clique ou uma busca de distância. Nesse lugar, independente para onde eles tenham ido, uma parte deles ainda está. Como restos mortais expostos em um grande ossuário para a visitação pública, como uma lápide, como um santuário, como um lar; como um memorial.

São visitados como em cemitérios, são velados logo que partem, visitados nos dias especiais, ou mesmo em qualquer dia que se desejar. Comentários e depoimentos são eternas velas, preces e orações. Imagens felizes que protagonizaram são flores, desabrochadas e em vívidas cores, são lindos cânticos infinitos; são imortais. Nesse local, diferente do mundo real, homens e mortos dividem espaços e convivem mesmo depois de se separarem.

Pelo menos enquanto aquele resquício durar. Enquanto o serviço que provê o acesso e o data center que hospeda esse memorial funcionarem. Enquanto a corporação que criou ou que detêm os direitos sobre aquele serviço se interessar em mantê-lo…

 

*Homenagem a todos que partiram deixando perfis em redes sociais que existem, que deixaram ou que deixarão de existir.