O Terminal

Era só mais uma tarde. Eu esperava um ônibus. Estava indo para um lugar diferente, onde ainda não tinha estado. Ele estava sentado no banco do terminal de ônibus. Roupas casuais, cabelos cortados, penteado da moda, sua cútis saudável e bronzeada transparecia saúde. Estava sentado meio que em uma posição contemplativa, cotovelos apoiados nas pernas, dedos tremulantes, como quem espera alguém ou algo. Meu olhar varreu de forma meio despercebida aquele rapaz. Meus olhares oscilavam lado a lado, como que procurando algo especial para ver. 

Ônibus vêm e vão, pessoas desembarcam, apressadas ou não, sempre a caminho de algum lugar, assim a vida acontece um terminal. Algumas param para pedir informações, outras conversam animadamente, mas sempre em movimento. A não ser que estejam em uma fila, já posicionadas, esperando o seu coletivo. Minutos se passam. Meu olhar passa novamente por aquela figura. Ele continua impassivelmente sentado, meio que apenas esperando. 

Eis que, minutos depois, uma moça de aparência saudável, cabelo no estilo black, pele morena, sorridente, se aproxima dele e senta-se. Ambos se olham. Ela diz algumas palavras que só ele saberá. O movimento dos transeuntes continua, a rotina implacavelmente regular. 
Minhas atenções se voltam para aquele casal e tenho a impressão que a música clássica que toca em meu iPod meio que busca aquele momento que se alinha para acontecer. Ela ajeita seus óculos, sorri, continua falando e é a vez dele sorrir. Ela acarinha de leve a cabeça dele, analisando o penteado, apreciando a sua aparência simples, comum, mas que a atraiu.

Vagarosamente eles vão se aproximando, algo me diz que vai acontecer. O arranjo musical da orquestra, em meu iPod, para por um instante, como que aguardando aquele momento. Os dois nem imaginam, mas eu estou em sintonia com os seus sentimentos, com os seus corações. Aprecio a casualidade simples daquele encontro. Me deslumbro e admiro a simplicidade da ocasião. Me alimento daquilo que é produzido por aqueles dois seres desconhecidos. Quero sorver um pouco daquela magia simples, mas única. Torço para que ela aconteça logo, e logo percebo meu coração palpitar.

E ele acontece, um beijo terno, que pouco a pouco aumenta de intensidade. O braço dele vagarosamente busca, e alcança o pescoço dela, que busca seu toque com uma mão. Minha mente se pergunta se ela e ele se encontraram pela primeira vez, a música da orquestra volta a tocar, passou para o último ato. A rotina não mudou nesse instante único, as pessoas continuam passando, o tempo, continua correndo normalmente. 

A pessoa que está na mesma fila que eu, atrás de mim, toca meu ombro, como um alerta. Meu ônibus chegou, manobra e estaciona ocultando aquela visão. É hora de embarcar. Quando estou para me dirigir a um assento vago torno a olhar para aquele banco, agora vazio. 

No terminal, vidas chegam e se vão. A rotina parece ser movimento sem emoção. Mas hoje não. A vida continuou, mas colocou três corações em sintonia, e um deles sem nenhuma aparente razão. Estou feliz.