Sushiman

    Essa eh a história de como eu morro no final.

Katsudon Sushi Bar

Katsudon Sushi Bar

    Sou o Sushiman de um restaurante michelan 2 estrelas qualquer em Tóquio. 

     Aprendi o ofício de cortar peixes com o senhor Hikarimono. Chefe do clã dos Hikarimono e pai de três filhas. Aji, Saba e Kohada. 

    Aji eh apática e incapaz de causar qualquer sentimento à qualquer pessoa. Saba tem pelancas numa mistura de bacon com simpatia, sua presença eh sempre bem-vinda. Kohada era bela, qualquer homem ou mulher em sua presença se imaginava tocando sua macia e deliciosa pele.  Eu estava apaixonado por Kohada.

    O senhor Maguro tinha o apoio do clã para se casar com Kohada. Fato que partia meu coração. Ele via mulheres como objetos e estúpidas mas tinha dinheiro o suficiente para manter essa opinião retrógrada. Enfim, o senhor Maguro era uma espécie em extinção. 

    Anos se passaram e meus aprendizados na casa dos Hikarimono haviam terminado. Abri meu próprio restaurante em baixo dos trilhos do trem e nunca mais vi Kohada. Meu restaurante, chamado Katsudon, ficou famoso pelo peixe de mesmo nome.

    Katsudon era um peixe venenoso que podia ser comido apenas uma vez na vida sem que o corpo humano sentisse os efeitos mortais do veneno. As substâncias químicas no sangue desse peixe nunca são eliminadas do corpo depois de ingeridos e doses grandes se tornam letais.

    O preparo desse peixe me foi ensinado pelo Sr. Hikarimono, privilégio que tive graças ao meu desempenho durante meus estudos. 

    Na primeira vez que vi o Sr. Hikarimono preparar esse peixe Kohada se sentava à mesa conosco. Entre a garrafa de sake seco e nossos copos cheios o velho Sushiman segurava a faca e cortava o peixe como o ilustrador que segura o pincel e escreve seu nome em uma de suas obras. Ele explicava os detalhes do preparo e como o veneno agia no corpo. "A vítima tem apenas tempo para sentir o gosto, e antes mesmo que ele se desfaça o coração já não bate mais." Com um pedaço à minha frente e outro à frente de Kohada nos olhamos olho no olho como parceiros no crime prestes à roubar um banco. "Lembrem-se, vcs só podem comer esse peixe uma única vez, caso contrário morrerão." Em sincronia eu e Kohada pegamos nossos Katsudon-zushi com o dedo indicador e o médio tocando o peixe e o polegar sob o arroz, os viramos de ponta cabeça, mergulhamos no shoyu e colocamos na boca por inteiro. 

    Nós nunca havíamos trocado uma palavra se quer, mas enquanto mastigávamos nos olhávamos e arregalávamos os olhos entre gemidos de satisfação. Sabíamos o que o outro pensava. Nem que por um breve instante pensávamos que a vida valia a pena. 

    Nem todos saiam das guelras do clã sabendo como preparar Katsudon. Mas o Reataurante Katsudon era um dos poucos restaurantes em Tóquio onde esse peixe podia ser encontrado.

    Certa noite, conferindo a lista de reservas que meu ajudante havia recebido no dia, percebi que um tal de Sr. Maguro havia feito uma reserva para dois. Como de costume, as próximas reservas estavam sendo feitas para daqui à 5 meses - característica bem comum de estabelecimentos onde ao mesmo tempo não mais do que 6 fregueses podiam se sentar. 

    Cinco meses para me encontrar com Kohada uma outra vez? Pq estaria vindo aqui? Li nos jornais que o Sr. Hikarimono havia falecido, seria esse o motivo de sua vinda? Com poucas opções de Katsudon na cidade talvez ela gostaria de sentir o gosto do peixe favorito de seu pai pela última vez. Corriam pelas redes sociais e comunidades na internet que meu Katsudon era o melhor desde a morte do Sr. Hikarimono. Kohada acreditava nesses boatos? 

    Se ela estivesse vindo aqui para comer esse peixe pela segunda vez ela morreria. Eh um choque pensar que ela tiraria a própria vida, posso apenas tentar convencê-la do contrário durante um jantar. Kohada virá jantar em meu restaurante e durante os pratos silenciosamente à mostrarei que a vida vale a pena. 

    Na manhã seguinte mandei meu ajudante ligar para o Sr. Maguro e dizer que uma vaga foi aberta para essa noite e se ele gostaria de jantar em meu restaurante essa noite mesmo. Naquela ocasião o primeiro ministro e um presidente americano jantariam em meu restaurante e cancelar tais reservas não seria nada bom para os negócios, mas eu estava certo do que devia fazer. Se Kohada estava certa de cometer o suicídio eu precisava agir rápido. 

    Fui ao mercado de peixes em busca dos mais frescos Katsudons e outros peixes. Comprei sakes doces, meio secos e secos e das quatro ilhas do Japão. O arroz dessa noite teria sido plantado usando a água derretida da neve do inverno, o gosto de quatro meses de neve e frio dão um gosto de nostalgia agridoce ao arroz. O gengibre também era especial.

    Todo jovem aprendiz prepara gengibres em conserva que ficarão em molho por anos com a esperança de serem um dia chamados para cozinhar para o imperador. Nessa noite eu abriria o pote que preparei quando ainda estava aos cuidados do Sr. Hikarimono e o serviria à sua filha Kohada.

    Hoje a noite alguém morreria.

Kohada

Kohada

    Minutos antes à hora marcada o Sr. Maguro e sua acompanhante chegaram ao restaurante. Por um instante o medo me paralisou. Irreconhecivelmente triste Kohada entrava no restaurante.  Seus cabelos negros combinavam com sua handbag. Por baixo de seu terninho preto a blusa de lã cinza e a camisa branca guiavam o meu olho ao diamante em seu peito. O símbolo da casa Hikarimono, um diamante brilhante. Ela não fez nenhum sinal de me reconhecer ao entrar no restaurante. O Sr. Maguro usava seu terno prateado e tinha cabelos queimados - uma espécie de loiro escuro. Ele parecia uma geisha. 

    Kohada estava escolhendo as bebidas. O Sr. Maguro não tinha o paladar para sakes apurado o suficiente para decidir o que acompanhar bons peixes. Se a escolha fosse dele teria um chopp e envergonharia Kohada. Ela escolhe dois sakes secos, os melhores que eu tenho em casa. Eu já os tinha preparado, aprendemos juntos que a ardência do sake se mistura melhor com o veneno do Katsudon. Ela tinha apenas um objetivo essa noite e eu tinha uma chance a cada prato de fazê-la mudar de idéia. 

    Eles brindam pelo fim do dia e me dão permissão para acompanhá-los no drink. Me sirvo do mesmo que Kohada e brindo com eles. 

    Meu primeiro peixe é o atum, Kohada muda sua expressão por um leve momento ao comer o primeiro prato. Ela passa da tristeza ao ódio a cada mastigada. Ela tem dificuldades para engolir o atum, claramente ela não gosta de atum. Mas agora eu sei que Kohada pode ser influenciada pelos meus pratos, se eu escolher a combinação correta conseguirei influenciar na decisão dela e terminaremos o jantar sem que ela peça por Katsudon. O que vc procura, Kohada? 

    Começo o jantar. Lula, Salmão, Molusco, Carapau, Sauro pacífico, Cavalinha, Enguia. Cada peixe uma emoção. Medo,  Sofrimento,  Alegria, Esperança. Se Kohada soubesse ao menos o que ela procura. Seu rosto triste é um mistério para ela mesma.

    O gosto do gengibre feito com a supervisão de pai se confunde com as lágrimas que caem para dentro dos olhos dela. Ela já não sabe se o gosto vem das lágrimas de pai ou dela mesma. As lembranças do pai se confundem com o passado e a dor do presente. Eles pedem outro copo de sake. 

    Foi um erro dar à ela o gosto do passado pelas mãos do pai. Se ela vai viver será pela esperança de um futuro sem o pai. Se ela não estiver disposta à isso eu não poderei fazer nada. Tudo o que me resta é mostrar que seu pai ainda vive no futuro. No moderno. No agora.

    Eu esquento o sake e flambo os peixes nessa minha segunda chance. A maioria das pessoas não reconhece o hábito de se esquentar o sake como uma tradição dos tempos onde não se sabia fazê-lo muito bem, e para que ele se tornasse apreciável ele era esquentado. A modernidade corrompeu essa ideia e criou sakes que podem tanto ser aquecidos ou servidos frios e começamos associar a ideia de sake quente à uma abordagem contemporânea da antiga tradição de se beber sake. Kohada da origem dessa tradição, mas seu paladar não. Irei influencia-la sem que ao menos perceba. 

    Os peixes flambados são mais modernos do que se imagina e para que não haja dúvidas da modernidade nessa noite sirvo cavalos e baleias. Kohada ignora a baleia e o Sr. Maguro devora à ambos os pratos achando que era gado. 

    Seus copos se esvaziam novamente e pedem uma nova leva de sakes. Dessa vez um doce e um seco. À menos que queiram repetir algo  eu sei que o próximo peixe será o Katsudon. Sirvo o sake seco à Kohada. A bebida saindo da garrafa me faz pensar em seu sangue. Quantas garrafas são necessárias para guardar todo o sangue dela? Me convenço que duas são o suficiente. Mas e para suas lágrimas? 

    O copo cheio fica parado no balcão superior, o sake se estagna como o mar antes da tempestade. Sirvo o sake doce ao Sr. Maguro que ainda mastiga a baleia roubada. Kohada esta imóvel. 

    É difícil dizer se ela esta apreensiva ou apenas juntando forças para algo. Sr. Maguro palita os dentes com seu dedo mindinho e estica o braço para o seu copo. “Katsudon kudasai,” Kohada como um arco retesado que lança a flecha no coração do alvo subtamente estica seu braço e se agarra ao copo de sake que o Sr. Maguro se aproximava e faz seu pedido final. O Sr. Maguro esta muito ocupado palitando o dente de seu bife imaginário para duvidar de Kohada quando ela me culpa por ter errado o pedido das bebidas. Mas para mim tudo ficou claro. Kohada nunca comeria Katsudon acompanhada do sake errado. 


    Ela não veio aqui para cometer suicídio. Ela tinha apenas uma ideia em mente, a de assassinato. O plano era claro, daríamos ao Sr. Maguro Katsudon. E se ela precisava de ajuda essa noite ela teria. 

    O Sr. Maguro faz um pedido antes que eu possa começar a preparar sua última refeição. Me desculpo em nome de todas as minhas gerações passadas e futuras por não termos mais baleia na casa. Não queria correr o risco dele se estufar antes do prato final. 

    Preparo o Katsudon como me foi ensinado pelo Sr. Hikarimono. O gosto daquela noite em que Kohada e eu provamos pela noite esse peixe ainda habita minha língua. O veneno já depositado em meu corpo ainda pesa em meu coração. Coloco um pedaço na frente de Kohada - estava tranquilo de que ela não o comeria essa noite. Coloco outro pedaço em frente ao Sr. Maguro. Sayonara meu amigo. Me corre um medo estranho pela espinha, e se ele nunca tivesse tido Katsudon? Kohada havia checado isso? Ele pega o peixe e coloca na boca como o gandula que devolve a bola ao campo. 

    Até mesmo o Sr. Maguro e seu paladar conseguem apreciar o sabor do Katsudon. Ele se torna outro homem por alguns instantes. Ainda mastigando o peixe com arroz ele é levado à outra dimensão. Com os olhos fechados é possível ver em seu rosto uma alegria desacostumada àquele lugar. Kohada e eu nos olhamos olho no olho como comparsas no crime prestes a matar alguém. Para Kohada cada mastigada é uma punhalada no peito de seu marido. O Sr. Maguro finalmente engole o sushi. 

Katsudon

Katsudon

    Quando ele vira o seu copo de sake e solta um gemido de prazer confirmamos nossa suspeita. Ele nunca havia comido Katsudon. O plano havia falhado. Sr. Maguro estava quase a chorar. Havíamos mudado um homem mas ele continuava vivo. Esse era o fim para Kohada. O que ela faria? Ele se levanta e vai ao banheiro. Kohada derrama uma lágrima que cai em cima de seu prato com shoyu e dirige a palavra a mim:

    "Meu pai acreditava que apenas o sofrimento é capaz de levar um homem à excelência. Que só uma mulher com uma ferida pode erguer a cabeça e mover o mundo.  Ele via em vc a única chance do legado de nossa família ser passado para a próxima geração.  Em mim ele via a única esperança para nosso clã. Vc tem o melhor Katsudon do país. Eu fiz do clã Hikarimono o que meu pai nunca sonhou ser possível.  Se para o meu pai uma ferida era um super-poder, ele nos transformou em heróis em um mundo de solidão.” Kohada estava abrindo seu coração para mim. Ela nunca quis se casar com o Sr. Maguro mas seu pai à obrigou.

    “Vamos, venha comigo. Sabemos que um sem o outro essa vida não tem sentido e nunca teve. Ontem descobri que estava grávida do Sr. Maguro. Esse filho que cresce em mim nunca nascerá e o clã Maguro nunca conhecerá um herdeiro.” Ela levanta o Katsudon-zushi como que em um brinde. Eu balanço a cabeça em negação mas não posso deixá-la fazer isso sozinha. Com uma das mãos compartilho o que me resta do meu sake seco e com a outra me sirvo um pedaço de Katsudon. Como uma pequena prece para que a vida tenha algum sentido mergulho o peixe no shoyu com as lágrimas de Kohada e novamente em sincronia temos Katsudon pela segunda vez. 

    Seu gosto é ainda melhor do que eu me lembrava, uma lágrima cai de meu olho esquerdo e outra lágrima cai do olho direito de Kohada.  Um pensamento me ocorre, seria suficiente apenas um pedaço de Katsudon  para matar um feto? Estavamos chorando, mas dessa vez não havia sincronia de pensamentos. 

    Kohada e eu vivíamos em mundos diferentes agora. Kohada havia descoberto que estava grávida ontem e para comemorar o Sr. Maguro decidiu jantar fora. Restaurantes melhores que o meu servem katsudon na cidade mas Kohada preferiu um restaurante menor pois sabia que não podia esperar mais do que nove meses pela reserva. Ela nunca quis se matar ou matar ao Sr. Maguro - mas claro celebraria se isso ocorresse. Ela veio aqui para se livrar do herdeiro do Sr. Maguro. 

    Obrigada pelo pai à se casar por interesse do clã, sendo obrigada a ter uma vida subalterna pelo marido em extinção e agora tendo que abortar por motivos que vão além da minha compreensão. Se o Sr. Hikarimono estava certo sobre sofrimento trazer poderes, o poder conferido à Kohada é o de suportar mais sofrimento e ainda sim sobreviver. 

    Nós dois caímos levando o sake ao chão após engolirmos ao Katsudon. O Sr. Maguro volta do banheiro para encontrar sua mulher caída. Logo ele à levará ao hospital onde ela perderá o bebe, que por ter absorvido o veneno salvará a vida de Kohada. 

    Tudo foi arquitetado perfeitamente por Kohada essa noite, inclusive minha morte. Não haveria quem explicasse o aborto supostamente natural. Ambos os fregueses da noite ingeriram os mesmos pratos, então não haveria peixe que pudesse ser culpado e eu  não poderia ser interrogado.