Personagem principal

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"Joãozinho, o que vc quer ser quando crescer?" "Quero ser personagem de romance moderno, professora." Isso foi o suficiente para Joãozinho ser chamado à diretoria, seus pais convocados à escola e seus amiguinhos duvidassem de sua sanidade. "Ele vai ser usado como alegoria estética pós-moderna, se publicado será esquecido. Seu nome será escrito em minúscula ou não terá nome algum. Se for alvo de copyright não será amado, será comprado," diziam alguns comentários na escola.

Seus pais não sabiam onde erraram. Todas as histórias gastas com uma boa educação para o filho e tudo o que planejavam era que o filho seguisse os passos do pai, um consistentizador.

É fácil escrever uma história qualquer que não faça sentido e que muitas vezes desafie as leis das lógicas. Mas é sabido que apenas com consistência lógica - qualquer que seja- uma história  pode vir a ser. Somente um bom profissional é capaz de tornar qualquer história livre de inconsistências e contradições. E o pai de Joãozinho era o melhor nesse ramo, trabalhou em obras como 'Alice no país das maravilhas' e 'Macunaíma' e nas bibliografias de Steve Jobs e Silvio Santos.

Joãozinho estava certo do que queria. Decidiu quando por acaso encontrou a barata de Kafka e João de Santo Cristo conversando sobre Inês Brasil na feira de ciências de sua escola. "Então eles também conhecem cultura pop?" Se perguntava Joãozinho pasmo com a experiência.  Ele nunca tinha entendido a necessidade que ideias tinham de discutir ideias. Sempre se interessou por pessoas e outros seres; diferente de outros meninos arregalava os olhos só de saber quando algum ex-BBB queimava a língua com um pastel. 

Quando viu esses dois personagens discutirem assuntos que também o interessavam botou na cabeça que o motivo era por serem personagens. E foi então que decidiu o seu destino, afinal, apenas no mundo das ideias que nossas decisões sobre nosso próprio destino são respeitadas. 

Joãozinho cresceu então.

Durante sua adolescência, já sem amigos, planejou em que tipo de história seria. Sabia que não rejeitaria nenhum gênero literário, nem mídia alguma. Pensou em rejeitar alguns tipos de autores, mas essa exigência foi esquecida poucos anos depois já que nenhuma história o fazia personagem. 

Planejou histórias perfeitas em sua cabeça durante os primeiros anos depois da faculdade. Se formou em qualquer coisa e tinha um emprego também qualquer, assim teria histórias suficientes para pagar o aluguel enquanto sua grande história não começava.

Já mais velho cogitava pela primeira o que fazer caso não viesse a ser um personagem, mas não sentia amor por nenhuma outra profissão. E ele sabia que antes de tudo precisa-se amar o que faz. Por isso logo voltava a planejar sua história. 

E planejou tao perfeitamente que nem percebeu que sua história estava sendo escrita por outra pessoa.