Título.

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     José morreu. Ele não morreu uma morte qualquer, ele morreu como um personagem principal de um romance renascentista. José foi morto pelo autor dessa história. 'Com ele morro eu' disse o autor ensaiando uma frase que não é sua. Ele tinha essa curiosidade de matar alguém - uma curiosidade pelo homicídio que vem não se sabe de onde

     Maria chorava a morte de José e isso cortava o coração do autor. Ele não queria entristecer Maria. Para que se sentisse melhor consigo mesmo voltou ao primeiro parágrafo de seu romance e onde se lia 'Maria era uma linda moça' trocou para 'José achava Maria uma linda moça', assim ele se sentia com liberdade para imaginar Maria com uma verruga, tranquilizando o coração do autor. 

     Com sangue em suas mãos o autor fechou os seus olhos e observou o que sentia como um assassino. A infinitude de possibilidades de uma vida humana reduzida ao vazio da morte. Tudo o que José foi já não é mais. Todos os sonhos, desejos, lembranças e sentimentos apagados. José era a última pessoa do universo que sabia como era o cheiro doce de Maria após o chuveiro e antes do travesseiro, e agora ninguém mais saberia disso. 

     Mas um pensamento inquietava o autor, o pensamento da reversibilidade da morte de José. Como era o autor, se ele quiser ele teria a capacidade de reviver o personagem com poucas teclas. Isso fez qualquer sentimento que o colocava ao nível de serial killers se acabar. Não importa o quanto ele se prometia nunca reviver José, ele não se sentia um assassino. A morte é irreversível, e a morte de José também deve ser. Mas agora a onipotência do autor o colocava em um impasse lógico que não importa o quanto ele pensasse não havia solução. 

     Seu romance foi publicado e o autor foi levado ao tribunal por homicídio. O juiz sentiu que José era homicída e sentenciou a 5 anos de reclusão seus sentimentos de felicidade e dor. Deprimido por motivo algum - ou simplesmente por incapacidade de se sentir feliz - o autor vê como saída para sua miséria escrever uma nova história onde José voltaria dos mortos. 

     Algumas semanas preso ao seu teclado lhe rendeu um simples romance que de notório tinha apenas a verruga de Maria. Ao publicado o juiz categorizou a obra literária como medíocre e preferiu salvar a história ignorando o segundo livro. O júri se dividiu entre os que acreditavam que a história era do autor e sentiam a dor de uma péssima história, e aqueles que tomavam para si a história de José e não deixariam que uma obra sem qualidade a maculasse. 

     No fim, o autor e seus sentimentos foram absolvidos em segunda instância. Com sua carreira acabada e esquecida não consegue publicar seu terceiro livro - onde Maria também morreria. Em uma visita à livraria nota o mais recente best-seller escrita pelo juíz, uma continuação não oficial de seu primeiro romance onde Maria e sua verruga se tornavam heróis. 

     O autor, como um pai que vê o filho graduado, vê sua onipotência sobre Maria, José e a verruga encerrada. Com um meio sorriso em seu rosto ele usa o dinheiro do almoço para comprar um exemplar e lê o livro em um suspiro.