Qual o Seu Nome de Drag Queen?

image.jpg

 

Para a pauta de um dos episódios do PQPCast eu decidi que eu criaria o meu nome de Drag Queen. Isso, nem a Thata nem o Júlio me pediram, eu decidi que seria uma boa ideia por mim mesmo.

Será que meus anos de video game, baladas góticas e amizades corriqueiras me ajudariam nessa? Eu sou heterossexual, assisti 'Priscilla, a Rainha do Deserto' apenas uma vez e tudo o que sei sobre Drag Queens foi vendo o reality show Acadêmica de Drags. Estou pronto para o desafio? De forma alguma! Mas com toda a minha adolescência criando nomes para personagens de RPG, criar um pseudônimo para o meu EU vestido como uma mulher não pode ser tão difícil.

Como criar seu nome de Drag?

Na busca pelo meu nome minha primeira ideia foi a de procurar por geradores de nomes automáticos. Como a gente disse no episódio sobre inteligência artificial 'existem até computadores  psicólogos,' por que eles não conseguiram me dar um nome de Drag? Fui ao Google. Mas depois de nomes como Marie Intervention, Monica opal, Hedda Alface e Tique Buceta achei que devia considerar melhor essa escolha.

Fui ao site wikihow e ignorei os materiais necessários: Amigas, Dinheiro e Maquiagem. Eu preciso de um nome, e pra isso preciso da minha criatividade. Meu nome deve servir como um procurador com licença jurídica da minha imagem. Quando eu não estiver lá pra mostrar ao mundo o que sou, ele deve bater no ouvido das pessoas e trazer à elas a minha imagem e a de mais ninguém. A primeira coisa a decidir era: Meu nome seria de uma Drag mashup de divas e celebridades ou seria de uma Drag única? 

Com a minha falta de experiência no assunto decidi me inspirar em divas e celebridades. Mas quem seria minha diva inspiradora, Madona, Lady Gaga ou Valesca Popozuda?  Dante, um poeta do século 16, teve como inspiração para percorrer o inférno e o purgatório sua própria musa. Mas uma meia dúzia de versos retrógrados da idade média não iriam me convencer. Minha inspiração seria uma Drag Queen.

image.jpg

O movimento  Drag Queen é muitas vezes pego no fogo cruzado entre os que acham Drags revolucionárias de gênero (Gender-Revolutionary) ou conservadoras de gênero (Gender-Conservative). Seriam as Drags rompedoras de paradigmas primariamente desestabilizando as normas de gênero e sexualidade? Ou seriam as Drags escritoras das normas sociais, se aproveitando de esteriótipos e preconceitos para expressar sua feminilidade? Meu nome Drag, qualquer que ele seja, não pode ser pego por essa discussão. Por isso meu nome será inspirado em homens que se vestem como mulheres e não em uma mulher. Qualquer implicação que minha escolha tenha estará na mesma frequência do movimento e serei livre de culpa primária.

A pergunta final é: Quem será a minha platônica Drag-mãe? Quando eu estiver na frente do espelho com a barba por fazer, a cola Pritt em uma mão e o pó na outra quem será minha inspiração? Se olhasse para  RuPaul, Divine ou Candy Darling talvez meu nome fosse DivDarling. Se olhasse para Simplesmente Nenê, Kaká di Polly ou Rita von Hunty talvez meu nome fosse  Simplesmente von Polly. Mas o fato era que nem Tchaka Drag Queen, nem Conchita Wurst e nem Hidra Von Carter odia ser. Eu tinha medo de ser acusado de plágio, e escritor algum poderia suportar isso. 

image.jpg

Para o inferno com qualquer discussão acadêmica sobre o tema. Meu nome Drag Queen é Madame Shiva Zimova, doa a quem doe. Madame pelo bar Madame Satã que tanto frequentei na adolescência; Shiva pelo personagem de vídeo game que tanto joguei na infância e Zimova por que é legal. E porque significa inverno (no feminino) em Tcheco.

Prazer. Qual o seu nome?

Se vc ainda esta em dúvida em como escolher o seu nome da uma olhada na entrevista que fizemos com a Drag Queen Rita von Hunty no PQPCast #26.  



Qual o Alinhamento dos Personagens da Vila do Chaves?

Fala galerinha do Mau. 

Estou com essa ideia de colocar os moradores da vila do Chaves como personagens de Dungeons&Dragons o famoso D&D. E comecei a pensar nos possíveis alinhamentos de cada personagem. Pra quem não sabe o que é alinhamento vou explicar rapidinho. Se vc souber o que é alinhamentos em D&D pode pular o próximo paragráfo ;)

No D&D o comportamento das criaturas estão associados à dois eixos. Um eixo com a  dicotomia Bom e Maligno, e o outro eixo com a dicotomia Caos e Ordem ( também chamado de Leal). A ideia é que um personagem Bom e Caótico, por exemplo, tenderia à ações boas mas de uma forma fora da norma ou leis (como Robin Hood). Um personagem Maligno e Leal tenderia à ações más com um certo padrão ou código. O Loki, irmão do Thor, é um exemplo bacana de personagem Maligno-Leal enquanto que o Coringa seria um exemplo de Maligno-Caótico, afinal "algumas pessoas só querem ver o mundo pegar fogo" como disse o Alfred. 

Esse sistema de alinhamentos de D&D é bem simples e da muito pano pra manga, principalmente porque ele nunca explica o que é o Bom e o Mal. E também porque comportamentos barbáricos (considerados caóticos no material do D&D) podem ser vistos como dentro deu um código de conduta não usual apenas. Mas com todos esses por menores de lado, qual seria uma boa caracterização dos personagens do Chaves? 


Qual o alinhamento da vila do Chaves?

 

Dona Florinda: Caótica-Maligna. 

A Dona Florinda é a masterMind, o KingPin, O Zé Pequeno da vila do Chaves. Esbofetando o Seu Madruga a tordo e a direito ela não podia ser menos do que o Caos na vila. Usando a influência e o poder do Prof. Girafales para abrir seu restaurante e exploração infantil para mantê-lo no dia-a-dia, a Dona Florinda se tornou a encarnação do Mal quando seu marido morreu em um trágico acidente.

Palavras do terror: Não se junto com essa gentalha!

Dona Clotilde: Neutro-Maligno

De ser bem óbvio porque uma Bruxa seria maligna. Ela usa todas as suas táticas para corromper a vila inteira. Desde as crianças, os animas ou os adultos. Ela tenta corromper o Seu Madruga com todas as suas forças

Palavras do Mal: Satanas!!!

Quico: Leal-Maligno.

O Quico é o pau mandado da Dona Florinda. Burro de mais para dominar o mundo sozinho. Sua lealdade à Dona Florinda (a qual chama em horas de perigo por Mamãe) é extrema. Tratando as crianças da vila como um sécto à sua riqueza e ostentação, o bochechudo da vila tem apenas uma coisa maior que seu rancor e ódio à humanidade: suas bochechas de buldogue velho.

Palavras do medo: Ohuinhó! Uhuhuhuhóhó

Chaves: Neutro - Neutro

O Chaves conhece as intempéries da vida como ninguém naquela vila. Tanto é que decidiu esconder sua moradia e seu nome verdadeiro dos outros habitantes. Apto à qualquer coisa para conseguir comida ele morreria mas não perderia a vida por um Sanduiche de presunto. Hora ajudando outros da vila e hora deixando a vida deles um inferno, o Chaves sabe que na vida é cada um por si. Hora do lado da Dona-Florinda ou hora do lado do Seu Madruga, o Chaves muda suas convicções quando as estruturas de poder mudam. Qualquer coisa em excesso deve ser evitado

Palavras da neutralidade: Foi sem querer querendo.

ChiquinhaCaótico - Neutro

A Chiquinha é a encarnação do inesperado em forma de guria. Talvez por ignorância ou inocência seu respeito por autoridades e estruturas de poder é inexistente. Chamando de burro tanto seus tutores quanto seu progenitor sempre que achar cabível e chutando Dona Florinda sem medo das consequencias, não é possível saber em qual lado ela está se é que ela distingui lado algum.  Ela demonstra como o caos e a improbabilidade estão ao seu lado quando ela adquiriu o único bilhete premiado para Acapulco.  

Palavras do Caos: O que vc tem de burro vc tem de burro!

Senhor Barriga: Neutro - Bom

Por que alguém que representa o capitalismo seria bom? Na verdade observando as estruturas de poder é ser bem fácil de entender. As únicas pessoas que efetivamente pagam o aluguel na vila são as entidades malignas, Dona Florinda e  Dona Clotilde. Se ele realmente se importasse com o aluguel do Seu Madruga ele saberia exatamente quantos meses ele deve, e não abstratos ’14 meses’ de aluguel. Sem falar que ter um inquilino que não pague o aluguel por tanto tempo é puro sinal de barriga do Senhor Bondade.

Palavras da Bondade: Eu vim receber o aluguel.

Seu Madruga: Caótico - Bom

Seu Madruga é a alma bondosa da vila. Com a esperança de que o bem esteja no coração de cada um, ele sempre se aproxima da Bruxa do 71 muda-lá para o lado bom. Sem nunca ter revidado as ofensas e injúrias feitas pela Dona Florinda, seu Madruga é um exemplo de ser humano. Ele só não gosta de trabalhar nem de se identificar com estereótipos pré-fabricados.

Palavras da bondade: A vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena.

Prof. Girafales: Leal - Bom

O Prof. Linguiça é o Paladino da Vila. Nesse mundo moderno onde capas e espadas foram esquecidos a palavra é a nova ordem. Na escola tentando catequizar o Quico e durante  tarde lutando contra a Dona Florinda, o Prof. Girafales luta com toda a sua eloquência e linguicesa para tirar do lado negro seu amor, Dona Florinda. 

Palavras da Justiça:Tá-Tá-Tá-Tá


Vc concorda com isso? Eu descrevi algum personagem errado? Me deixa sabendo o que vc acha aqui nos comentários.

Estúdio independente de São Paulo mostra que dá pra fazer games com apoio do estado.

Estúdio Paulista independente

Estúdio Paulista independente

    Pocket-Trap, um estúdio Brasileiro apoiado pela secretaria de cultura de São Paulo, estava no seleto grupo escolhido pela Sony para representar a bandeira independente na Tóquio Game Show 2014. Com seu stand sempre movimentado, o jogo ainda em desenvolvimento “Ninjin: Clash of Carrots” atraiu a atenção de visitantes estrangeiros e japoneses e descolou um lugar entre os mais interessantes na seção indie de acordo com a imprensa nipônica.

    O primeiro jogo do estúdio paulista foi um runner que apareceu na app Store no ano passado e já mostrou a maturidade dos seus integrantes. Com um modelo de compra amigável, onde a primeira parte do game é de graça e só depois de muitas cenouras coletadas e upgrades em sua espada ninja é que o jogador precisa desembolsar algo. O sistema de progressão, os diferentes níveis e level design de Ninjin mostra que o pessoal do Pocket-Trap esta em sintonia com os games mais atuais do gênero. A arte desse runner também tem um traço cartoonesco agradável e sólido. 

    Vale mencionar que o nome Ninjin vem de uma brincadeira com as palavras 'Ninjin' (Cenoura) e 'Ninja' nos caracteres Japoneses. O caracter de leitura Nin(忍) de 'Ninja' com o caracter  jin(参) de 'Ninjin' (Cenoura) formam o nome desse espirituoso runner (忍参).  

    Ninjin:Clash of Carrots será a continuação do primeiro game do estúdio. Um modo história será adicionado junto à um modo similar á Dinasty Warrior (alguém lembra?). Com a arte similar ao primeiro jogo, vamos poder coletar cenouras e descer o sarrafo com nossas espadas ninjas. 

    De acordo com Henrique Caprino, Produtor do Game, o game Ninjin:Clash of Carrots tem previsão de lançamento para o segundo semestre do ano que vem. O estúdio foi um dos  selecionados no edital de 2013 do Município de São Paulo para incentivo ao audiovisual incluindo (pela primeira vez) games. A Pocket-Trap foi contemplada com R$50mil para o desenvolvimento de um projeto mas Caprino garante que terminarão o jogo no perído.

    Ano passado a secretaria de cultura de São Paulo com o Programa de Fomento ao Audiovisuais pela primeira vez também selecionou games e nesse ano não deve ser diferente. Apesar de ser um processo extremamente burocrático, a Pocket-Trap veio pra mostrar que é possível. Vamos ficar de olho no edital desse ano e se você vir promover o game do seu estúdio aqui pelos lados de Tóquio me manda um email.

TAROTICA VOO DOO - CULTURA NIPÔNICA EM CADA PIXEL DA TELA

    Games são formas de expressão capazes de condensar décadas de cultura em seus bits e pixeis assim como muitos clássicos da literatura, cinema ou outras obras de arte. 

    Para ilustrar meu ponto eu fui até a Tokyo Game Show 2014 (TGS) dar uma olhada no enigmático TAROTICA VOO DOO, jogo que será lançado em breve para PC e desenvolvido pela TPMCO SOFTWORKS. Porém, pra vc entender quando eu falo 'enigmático' a gente vai olhar para o Japão pós-guerra. Chega mais.

Kazuo Ohno, criador do Butoh

Kazuo Ohno, criador do Butoh

    O Butoh é uma dança contemporânea japonesa produto da cultura do pós-guerra em que o país se encontrava na década de 50. Quando Kazuo Ohno, um dos criadores do Butoh, se apresentou pela primeira vez na Europa os espectadores tinham dificuldades em entender os sentimentos que ele expressava pois ele era mais contido do que os dançarinos ocidentais (considerados exagerados por Onoh). Isso era uma decisão consciente do dançarino japonês, ele defendia que dessa forma o público manteria o interesse nele e em sua dança mesmo após o enigma resolvido. 

Togo-san, desenvolvedor do TAROTICA VOO DOO segurando um disquete contendo seu jogo.

Togo-san, desenvolvedor do TAROTICA VOO DOO segurando um disquete contendo seu jogo.

    Conscientemente ou não, essa é a mesma estratégia empregada por Togo-san, dev do TAROTICA VOO DOO. Em meio à games com budgets milhorários, gráficos hiper-realistas e consoles recém lançados, o estúdio TPMCO SOFTWORKS foi à TGS apresentar seu game com gráficos pixelizados pré 8bits.  As cores do game parecem defeitos do monitor, os desenhos são toscos e a versão que eu joguei rodava em um computador top de linha de 1987 com o código do jogo em um Disquete (isso, disquete 3 1/2 - veja a foto do Togo-san segurando a raridade). Quase uma afronta ao visitante que decide investir tempo em seu game e não em algum com budget maior. Mas onde TAROTICA VOO DOO acertou?

    Claro que a estratégia de marketing do desenvolvedor foi um sucesso, 'é proposital, não consigo competir com esses jogos' comentava enquanto olhava para os jogos polidos ao redor de seu stand. Mas além de marketing, TAROTICA VOO DOO tinha uma estrutura moderna no gameplay. Com uma pitada de point-and-click e batalhas em tempo real num level design  que evoca Gone Home esse jogo perdoa o jogador pelos seus erros, as animações tem transições suaves (olha essa espada se mexendo na hora do ataque, minha gente) e sua interface é tosca, minimalista mas funciona.  

Screenshot do TAROTICA VOO DOO

    A música do game não fica pra trás, não só ela tem uma levada mais moderna como esperamos de jogos atuais, mas também Togo-san me mandou um vídeo onde ele toca no piano a música do BG do game como agradecimento às pessoas que jogaram TAROTICA VOO DOO. A educação com a visita é outro aspecto da cultura nipônica evidenciado através dos bits desse game. (Estou negociando com Togo-san pra liberar o vídeo pra vcs)

    No balanço geral TAROTICA VOO DOO expressa um pedaço gigante da cultura japonesa em seus bits e é tão moderno que eu não ficaria surpreso se tivessem IAP's. Espero poder terminar esse game e desvendar mais de seus mistérios.

Ello, a rede social sem a minha tia.

     Ello é uma rede social ‘hipster’. Cresceu de forma acentuada por causa da onda causada pela comunidade GLBT que foi obrigada pelo Facebook a usar seus nomes reais. A pegada dessa rede social é a de ser ad-free e não vender os dados dos usuários para empresas.
    Ello é o novo Facebook? Não, mas é importante perceber que a gente precisa de uma alternativa para o Facebook dado a forma agressiva que essa rede social nos entuxa com propaganda e nos trata como mercadoria.
    Ai vc me diz, 'Mas cara, já teve um monte de rede social, não eh de agora. E mais, o Facebook também se dizia de graça e não vendia os dados do usuário no começo.' Pode ser, mas primeiro que o modelo de negócio do Facebook é basicamente o mesmo desde o começo e ele só não vendia nossos dados pq ninguém queria comprar. O Ello desde o começo aborda outra estratégia. 
    A estratégia do ello é similar à jogos eletrônicos freemium, aqueles jogos que te dão os elementos básicos de graça mas se vc quiser mais terá de pagar. Por exemplo, se o usuário quiser acessar múltiplas contas com apenas um login isso faria parte de uma conta premium.  O jogo Clash of Clans chegou a faturar quase $1 bilhão em 2013 com esse sistema. 

     É interessante lembrar que o próprio fb tem opções de produtos, mas que representa apenas uma pequena parte dos seus $7 bilhões na receita de 2013.           

     Outro aspecto maroto do ello é a modernidade que ele se inspira. Seu modelo freemium, nossa aversão à propagandas e até mesmo o suporte  à gifs são aspectos da época em que ello se insere, e isso mostra que os designers dessa rede social estão ligados no mesmo mundo que nós mortais.  

Três lições que o Ello nos ensina 

1. Pense pequeno:
    O Ello foi usado entre amigos por mais ou menos um ano até ser aberto ao público. Então se vc também esta fazendo seu podcast  comece e pense pequeno. Até mesmo o Facebook começou como uma rede social para uma única faculdade. 

2. Sucesso não ocorre da noite pro dia.
    A gente ainda não sabe se o ello vai se dar bem nessa história toda. O máximo que a gente pode fazer é comparar com outras redes sociais, como Facebook e Twitter. Essas duas redes demoraram  anos para terem lucro pela primeira vez, a galera do ello ta sabendo disso e diz que vai ser paciente. 
    O pessoal do 'Matando Robôs Gigantes’ já disse que o podcast deles só teve retorno depois do terceiro ano. Então se vc já esta seguindo a primeira dica, na hora de pensar no seu podcast planeje e espere retorno só pro ano que vem (ou depois… ou ainda depois). 

3. Sucesso não é o que os outros te falam o que é!
    Acho que essa dica é a mais importante. A maior (e talvez única) crítica ao ello e seu modelo é a de que assim ele nunca será um real adversário do Facebook. 
     Ele precisa mesmo ser um adversário do Facebook? Podemos comparar websites como Vimeo e Twitch que são plataformas de vídeo mas não representam nenhum risco ao Youtube, por exemplo. E eles nem precisam,  são companhias extremamente populares e efetivas nos meios em que estão (isso a Amazon sabe, a empresa disse que pagaria quase $1bilhão pelo Twitch). Uma medida mais direta do sucesso do ello pode ser feita comparando seu número de acessos que já ultrapassou ao Fotolog (lembra dele?). Se isso não é medida de sucesso eu não sei mais o que é. 

Então, eu te convido pra deixar a minha tia pra trás no Facebook e vir me dizer ello ello.co/pqpcast.

Sushiman

    Essa eh a história de como eu morro no final.

Katsudon Sushi Bar

Katsudon Sushi Bar

    Sou o Sushiman de um restaurante michelan 2 estrelas qualquer em Tóquio. 

     Aprendi o ofício de cortar peixes com o senhor Hikarimono. Chefe do clã dos Hikarimono e pai de três filhas. Aji, Saba e Kohada. 

    Aji eh apática e incapaz de causar qualquer sentimento à qualquer pessoa. Saba tem pelancas numa mistura de bacon com simpatia, sua presença eh sempre bem-vinda. Kohada era bela, qualquer homem ou mulher em sua presença se imaginava tocando sua macia e deliciosa pele.  Eu estava apaixonado por Kohada.

    O senhor Maguro tinha o apoio do clã para se casar com Kohada. Fato que partia meu coração. Ele via mulheres como objetos e estúpidas mas tinha dinheiro o suficiente para manter essa opinião retrógrada. Enfim, o senhor Maguro era uma espécie em extinção. 

    Anos se passaram e meus aprendizados na casa dos Hikarimono haviam terminado. Abri meu próprio restaurante em baixo dos trilhos do trem e nunca mais vi Kohada. Meu restaurante, chamado Katsudon, ficou famoso pelo peixe de mesmo nome.

    Katsudon era um peixe venenoso que podia ser comido apenas uma vez na vida sem que o corpo humano sentisse os efeitos mortais do veneno. As substâncias químicas no sangue desse peixe nunca são eliminadas do corpo depois de ingeridos e doses grandes se tornam letais.

    O preparo desse peixe me foi ensinado pelo Sr. Hikarimono, privilégio que tive graças ao meu desempenho durante meus estudos. 

    Na primeira vez que vi o Sr. Hikarimono preparar esse peixe Kohada se sentava à mesa conosco. Entre a garrafa de sake seco e nossos copos cheios o velho Sushiman segurava a faca e cortava o peixe como o ilustrador que segura o pincel e escreve seu nome em uma de suas obras. Ele explicava os detalhes do preparo e como o veneno agia no corpo. "A vítima tem apenas tempo para sentir o gosto, e antes mesmo que ele se desfaça o coração já não bate mais." Com um pedaço à minha frente e outro à frente de Kohada nos olhamos olho no olho como parceiros no crime prestes à roubar um banco. "Lembrem-se, vcs só podem comer esse peixe uma única vez, caso contrário morrerão." Em sincronia eu e Kohada pegamos nossos Katsudon-zushi com o dedo indicador e o médio tocando o peixe e o polegar sob o arroz, os viramos de ponta cabeça, mergulhamos no shoyu e colocamos na boca por inteiro. 

    Nós nunca havíamos trocado uma palavra se quer, mas enquanto mastigávamos nos olhávamos e arregalávamos os olhos entre gemidos de satisfação. Sabíamos o que o outro pensava. Nem que por um breve instante pensávamos que a vida valia a pena. 

    Nem todos saiam das guelras do clã sabendo como preparar Katsudon. Mas o Reataurante Katsudon era um dos poucos restaurantes em Tóquio onde esse peixe podia ser encontrado.

    Certa noite, conferindo a lista de reservas que meu ajudante havia recebido no dia, percebi que um tal de Sr. Maguro havia feito uma reserva para dois. Como de costume, as próximas reservas estavam sendo feitas para daqui à 5 meses - característica bem comum de estabelecimentos onde ao mesmo tempo não mais do que 6 fregueses podiam se sentar. 

    Cinco meses para me encontrar com Kohada uma outra vez? Pq estaria vindo aqui? Li nos jornais que o Sr. Hikarimono havia falecido, seria esse o motivo de sua vinda? Com poucas opções de Katsudon na cidade talvez ela gostaria de sentir o gosto do peixe favorito de seu pai pela última vez. Corriam pelas redes sociais e comunidades na internet que meu Katsudon era o melhor desde a morte do Sr. Hikarimono. Kohada acreditava nesses boatos? 

    Se ela estivesse vindo aqui para comer esse peixe pela segunda vez ela morreria. Eh um choque pensar que ela tiraria a própria vida, posso apenas tentar convencê-la do contrário durante um jantar. Kohada virá jantar em meu restaurante e durante os pratos silenciosamente à mostrarei que a vida vale a pena. 

    Na manhã seguinte mandei meu ajudante ligar para o Sr. Maguro e dizer que uma vaga foi aberta para essa noite e se ele gostaria de jantar em meu restaurante essa noite mesmo. Naquela ocasião o primeiro ministro e um presidente americano jantariam em meu restaurante e cancelar tais reservas não seria nada bom para os negócios, mas eu estava certo do que devia fazer. Se Kohada estava certa de cometer o suicídio eu precisava agir rápido. 

    Fui ao mercado de peixes em busca dos mais frescos Katsudons e outros peixes. Comprei sakes doces, meio secos e secos e das quatro ilhas do Japão. O arroz dessa noite teria sido plantado usando a água derretida da neve do inverno, o gosto de quatro meses de neve e frio dão um gosto de nostalgia agridoce ao arroz. O gengibre também era especial.

    Todo jovem aprendiz prepara gengibres em conserva que ficarão em molho por anos com a esperança de serem um dia chamados para cozinhar para o imperador. Nessa noite eu abriria o pote que preparei quando ainda estava aos cuidados do Sr. Hikarimono e o serviria à sua filha Kohada.

    Hoje a noite alguém morreria.

Kohada

Kohada

    Minutos antes à hora marcada o Sr. Maguro e sua acompanhante chegaram ao restaurante. Por um instante o medo me paralisou. Irreconhecivelmente triste Kohada entrava no restaurante.  Seus cabelos negros combinavam com sua handbag. Por baixo de seu terninho preto a blusa de lã cinza e a camisa branca guiavam o meu olho ao diamante em seu peito. O símbolo da casa Hikarimono, um diamante brilhante. Ela não fez nenhum sinal de me reconhecer ao entrar no restaurante. O Sr. Maguro usava seu terno prateado e tinha cabelos queimados - uma espécie de loiro escuro. Ele parecia uma geisha. 

    Kohada estava escolhendo as bebidas. O Sr. Maguro não tinha o paladar para sakes apurado o suficiente para decidir o que acompanhar bons peixes. Se a escolha fosse dele teria um chopp e envergonharia Kohada. Ela escolhe dois sakes secos, os melhores que eu tenho em casa. Eu já os tinha preparado, aprendemos juntos que a ardência do sake se mistura melhor com o veneno do Katsudon. Ela tinha apenas um objetivo essa noite e eu tinha uma chance a cada prato de fazê-la mudar de idéia. 

    Eles brindam pelo fim do dia e me dão permissão para acompanhá-los no drink. Me sirvo do mesmo que Kohada e brindo com eles. 

    Meu primeiro peixe é o atum, Kohada muda sua expressão por um leve momento ao comer o primeiro prato. Ela passa da tristeza ao ódio a cada mastigada. Ela tem dificuldades para engolir o atum, claramente ela não gosta de atum. Mas agora eu sei que Kohada pode ser influenciada pelos meus pratos, se eu escolher a combinação correta conseguirei influenciar na decisão dela e terminaremos o jantar sem que ela peça por Katsudon. O que vc procura, Kohada? 

    Começo o jantar. Lula, Salmão, Molusco, Carapau, Sauro pacífico, Cavalinha, Enguia. Cada peixe uma emoção. Medo,  Sofrimento,  Alegria, Esperança. Se Kohada soubesse ao menos o que ela procura. Seu rosto triste é um mistério para ela mesma.

    O gosto do gengibre feito com a supervisão de pai se confunde com as lágrimas que caem para dentro dos olhos dela. Ela já não sabe se o gosto vem das lágrimas de pai ou dela mesma. As lembranças do pai se confundem com o passado e a dor do presente. Eles pedem outro copo de sake. 

    Foi um erro dar à ela o gosto do passado pelas mãos do pai. Se ela vai viver será pela esperança de um futuro sem o pai. Se ela não estiver disposta à isso eu não poderei fazer nada. Tudo o que me resta é mostrar que seu pai ainda vive no futuro. No moderno. No agora.

    Eu esquento o sake e flambo os peixes nessa minha segunda chance. A maioria das pessoas não reconhece o hábito de se esquentar o sake como uma tradição dos tempos onde não se sabia fazê-lo muito bem, e para que ele se tornasse apreciável ele era esquentado. A modernidade corrompeu essa ideia e criou sakes que podem tanto ser aquecidos ou servidos frios e começamos associar a ideia de sake quente à uma abordagem contemporânea da antiga tradição de se beber sake. Kohada da origem dessa tradição, mas seu paladar não. Irei influencia-la sem que ao menos perceba. 

    Os peixes flambados são mais modernos do que se imagina e para que não haja dúvidas da modernidade nessa noite sirvo cavalos e baleias. Kohada ignora a baleia e o Sr. Maguro devora à ambos os pratos achando que era gado. 

    Seus copos se esvaziam novamente e pedem uma nova leva de sakes. Dessa vez um doce e um seco. À menos que queiram repetir algo  eu sei que o próximo peixe será o Katsudon. Sirvo o sake seco à Kohada. A bebida saindo da garrafa me faz pensar em seu sangue. Quantas garrafas são necessárias para guardar todo o sangue dela? Me convenço que duas são o suficiente. Mas e para suas lágrimas? 

    O copo cheio fica parado no balcão superior, o sake se estagna como o mar antes da tempestade. Sirvo o sake doce ao Sr. Maguro que ainda mastiga a baleia roubada. Kohada esta imóvel. 

    É difícil dizer se ela esta apreensiva ou apenas juntando forças para algo. Sr. Maguro palita os dentes com seu dedo mindinho e estica o braço para o seu copo. “Katsudon kudasai,” Kohada como um arco retesado que lança a flecha no coração do alvo subtamente estica seu braço e se agarra ao copo de sake que o Sr. Maguro se aproximava e faz seu pedido final. O Sr. Maguro esta muito ocupado palitando o dente de seu bife imaginário para duvidar de Kohada quando ela me culpa por ter errado o pedido das bebidas. Mas para mim tudo ficou claro. Kohada nunca comeria Katsudon acompanhada do sake errado. 


    Ela não veio aqui para cometer suicídio. Ela tinha apenas uma ideia em mente, a de assassinato. O plano era claro, daríamos ao Sr. Maguro Katsudon. E se ela precisava de ajuda essa noite ela teria. 

    O Sr. Maguro faz um pedido antes que eu possa começar a preparar sua última refeição. Me desculpo em nome de todas as minhas gerações passadas e futuras por não termos mais baleia na casa. Não queria correr o risco dele se estufar antes do prato final. 

    Preparo o Katsudon como me foi ensinado pelo Sr. Hikarimono. O gosto daquela noite em que Kohada e eu provamos pela noite esse peixe ainda habita minha língua. O veneno já depositado em meu corpo ainda pesa em meu coração. Coloco um pedaço na frente de Kohada - estava tranquilo de que ela não o comeria essa noite. Coloco outro pedaço em frente ao Sr. Maguro. Sayonara meu amigo. Me corre um medo estranho pela espinha, e se ele nunca tivesse tido Katsudon? Kohada havia checado isso? Ele pega o peixe e coloca na boca como o gandula que devolve a bola ao campo. 

    Até mesmo o Sr. Maguro e seu paladar conseguem apreciar o sabor do Katsudon. Ele se torna outro homem por alguns instantes. Ainda mastigando o peixe com arroz ele é levado à outra dimensão. Com os olhos fechados é possível ver em seu rosto uma alegria desacostumada àquele lugar. Kohada e eu nos olhamos olho no olho como comparsas no crime prestes a matar alguém. Para Kohada cada mastigada é uma punhalada no peito de seu marido. O Sr. Maguro finalmente engole o sushi. 

Katsudon

Katsudon

    Quando ele vira o seu copo de sake e solta um gemido de prazer confirmamos nossa suspeita. Ele nunca havia comido Katsudon. O plano havia falhado. Sr. Maguro estava quase a chorar. Havíamos mudado um homem mas ele continuava vivo. Esse era o fim para Kohada. O que ela faria? Ele se levanta e vai ao banheiro. Kohada derrama uma lágrima que cai em cima de seu prato com shoyu e dirige a palavra a mim:

    "Meu pai acreditava que apenas o sofrimento é capaz de levar um homem à excelência. Que só uma mulher com uma ferida pode erguer a cabeça e mover o mundo.  Ele via em vc a única chance do legado de nossa família ser passado para a próxima geração.  Em mim ele via a única esperança para nosso clã. Vc tem o melhor Katsudon do país. Eu fiz do clã Hikarimono o que meu pai nunca sonhou ser possível.  Se para o meu pai uma ferida era um super-poder, ele nos transformou em heróis em um mundo de solidão.” Kohada estava abrindo seu coração para mim. Ela nunca quis se casar com o Sr. Maguro mas seu pai à obrigou.

    “Vamos, venha comigo. Sabemos que um sem o outro essa vida não tem sentido e nunca teve. Ontem descobri que estava grávida do Sr. Maguro. Esse filho que cresce em mim nunca nascerá e o clã Maguro nunca conhecerá um herdeiro.” Ela levanta o Katsudon-zushi como que em um brinde. Eu balanço a cabeça em negação mas não posso deixá-la fazer isso sozinha. Com uma das mãos compartilho o que me resta do meu sake seco e com a outra me sirvo um pedaço de Katsudon. Como uma pequena prece para que a vida tenha algum sentido mergulho o peixe no shoyu com as lágrimas de Kohada e novamente em sincronia temos Katsudon pela segunda vez. 

    Seu gosto é ainda melhor do que eu me lembrava, uma lágrima cai de meu olho esquerdo e outra lágrima cai do olho direito de Kohada.  Um pensamento me ocorre, seria suficiente apenas um pedaço de Katsudon  para matar um feto? Estavamos chorando, mas dessa vez não havia sincronia de pensamentos. 

    Kohada e eu vivíamos em mundos diferentes agora. Kohada havia descoberto que estava grávida ontem e para comemorar o Sr. Maguro decidiu jantar fora. Restaurantes melhores que o meu servem katsudon na cidade mas Kohada preferiu um restaurante menor pois sabia que não podia esperar mais do que nove meses pela reserva. Ela nunca quis se matar ou matar ao Sr. Maguro - mas claro celebraria se isso ocorresse. Ela veio aqui para se livrar do herdeiro do Sr. Maguro. 

    Obrigada pelo pai à se casar por interesse do clã, sendo obrigada a ter uma vida subalterna pelo marido em extinção e agora tendo que abortar por motivos que vão além da minha compreensão. Se o Sr. Hikarimono estava certo sobre sofrimento trazer poderes, o poder conferido à Kohada é o de suportar mais sofrimento e ainda sim sobreviver. 

    Nós dois caímos levando o sake ao chão após engolirmos ao Katsudon. O Sr. Maguro volta do banheiro para encontrar sua mulher caída. Logo ele à levará ao hospital onde ela perderá o bebe, que por ter absorvido o veneno salvará a vida de Kohada. 

    Tudo foi arquitetado perfeitamente por Kohada essa noite, inclusive minha morte. Não haveria quem explicasse o aborto supostamente natural. Ambos os fregueses da noite ingeriram os mesmos pratos, então não haveria peixe que pudesse ser culpado e eu  não poderia ser interrogado.

Personagem principal

image.jpg

"Joãozinho, o que vc quer ser quando crescer?" "Quero ser personagem de romance moderno, professora." Isso foi o suficiente para Joãozinho ser chamado à diretoria, seus pais convocados à escola e seus amiguinhos duvidassem de sua sanidade. "Ele vai ser usado como alegoria estética pós-moderna, se publicado será esquecido. Seu nome será escrito em minúscula ou não terá nome algum. Se for alvo de copyright não será amado, será comprado," diziam alguns comentários na escola.

Seus pais não sabiam onde erraram. Todas as histórias gastas com uma boa educação para o filho e tudo o que planejavam era que o filho seguisse os passos do pai, um consistentizador.

É fácil escrever uma história qualquer que não faça sentido e que muitas vezes desafie as leis das lógicas. Mas é sabido que apenas com consistência lógica - qualquer que seja- uma história  pode vir a ser. Somente um bom profissional é capaz de tornar qualquer história livre de inconsistências e contradições. E o pai de Joãozinho era o melhor nesse ramo, trabalhou em obras como 'Alice no país das maravilhas' e 'Macunaíma' e nas bibliografias de Steve Jobs e Silvio Santos.

Joãozinho estava certo do que queria. Decidiu quando por acaso encontrou a barata de Kafka e João de Santo Cristo conversando sobre Inês Brasil na feira de ciências de sua escola. "Então eles também conhecem cultura pop?" Se perguntava Joãozinho pasmo com a experiência.  Ele nunca tinha entendido a necessidade que ideias tinham de discutir ideias. Sempre se interessou por pessoas e outros seres; diferente de outros meninos arregalava os olhos só de saber quando algum ex-BBB queimava a língua com um pastel. 

Quando viu esses dois personagens discutirem assuntos que também o interessavam botou na cabeça que o motivo era por serem personagens. E foi então que decidiu o seu destino, afinal, apenas no mundo das ideias que nossas decisões sobre nosso próprio destino são respeitadas. 

Joãozinho cresceu então.

Durante sua adolescência, já sem amigos, planejou em que tipo de história seria. Sabia que não rejeitaria nenhum gênero literário, nem mídia alguma. Pensou em rejeitar alguns tipos de autores, mas essa exigência foi esquecida poucos anos depois já que nenhuma história o fazia personagem. 

Planejou histórias perfeitas em sua cabeça durante os primeiros anos depois da faculdade. Se formou em qualquer coisa e tinha um emprego também qualquer, assim teria histórias suficientes para pagar o aluguel enquanto sua grande história não começava.

Já mais velho cogitava pela primeira o que fazer caso não viesse a ser um personagem, mas não sentia amor por nenhuma outra profissão. E ele sabia que antes de tudo precisa-se amar o que faz. Por isso logo voltava a planejar sua história. 

E planejou tao perfeitamente que nem percebeu que sua história estava sendo escrita por outra pessoa.

 

Título.

image.jpg

     José morreu. Ele não morreu uma morte qualquer, ele morreu como um personagem principal de um romance renascentista. José foi morto pelo autor dessa história. 'Com ele morro eu' disse o autor ensaiando uma frase que não é sua. Ele tinha essa curiosidade de matar alguém - uma curiosidade pelo homicídio que vem não se sabe de onde

     Maria chorava a morte de José e isso cortava o coração do autor. Ele não queria entristecer Maria. Para que se sentisse melhor consigo mesmo voltou ao primeiro parágrafo de seu romance e onde se lia 'Maria era uma linda moça' trocou para 'José achava Maria uma linda moça', assim ele se sentia com liberdade para imaginar Maria com uma verruga, tranquilizando o coração do autor. 

     Com sangue em suas mãos o autor fechou os seus olhos e observou o que sentia como um assassino. A infinitude de possibilidades de uma vida humana reduzida ao vazio da morte. Tudo o que José foi já não é mais. Todos os sonhos, desejos, lembranças e sentimentos apagados. José era a última pessoa do universo que sabia como era o cheiro doce de Maria após o chuveiro e antes do travesseiro, e agora ninguém mais saberia disso. 

     Mas um pensamento inquietava o autor, o pensamento da reversibilidade da morte de José. Como era o autor, se ele quiser ele teria a capacidade de reviver o personagem com poucas teclas. Isso fez qualquer sentimento que o colocava ao nível de serial killers se acabar. Não importa o quanto ele se prometia nunca reviver José, ele não se sentia um assassino. A morte é irreversível, e a morte de José também deve ser. Mas agora a onipotência do autor o colocava em um impasse lógico que não importa o quanto ele pensasse não havia solução. 

     Seu romance foi publicado e o autor foi levado ao tribunal por homicídio. O juiz sentiu que José era homicída e sentenciou a 5 anos de reclusão seus sentimentos de felicidade e dor. Deprimido por motivo algum - ou simplesmente por incapacidade de se sentir feliz - o autor vê como saída para sua miséria escrever uma nova história onde José voltaria dos mortos. 

     Algumas semanas preso ao seu teclado lhe rendeu um simples romance que de notório tinha apenas a verruga de Maria. Ao publicado o juiz categorizou a obra literária como medíocre e preferiu salvar a história ignorando o segundo livro. O júri se dividiu entre os que acreditavam que a história era do autor e sentiam a dor de uma péssima história, e aqueles que tomavam para si a história de José e não deixariam que uma obra sem qualidade a maculasse. 

     No fim, o autor e seus sentimentos foram absolvidos em segunda instância. Com sua carreira acabada e esquecida não consegue publicar seu terceiro livro - onde Maria também morreria. Em uma visita à livraria nota o mais recente best-seller escrita pelo juíz, uma continuação não oficial de seu primeiro romance onde Maria e sua verruga se tornavam heróis. 

     O autor, como um pai que vê o filho graduado, vê sua onipotência sobre Maria, José e a verruga encerrada. Com um meio sorriso em seu rosto ele usa o dinheiro do almoço para comprar um exemplar e lê o livro em um suspiro.